O que realmente importa

O que realmente importa – O envelhecimento da população brasileira vem transformando profundamente a área da saúde. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de pessoas com 60 anos ou mais deve dobrar nas próximas décadas, ampliando a necessidade de modelos de cuidado mais humanizados, individualizados e centrados na qualidade de vida.

Nesse contexto, a Geriatria moderna consolidou os chamados 5Ms da Geriatria: mente (Mind), mobilidade (Mobility), medicações (Medications), multicomplexidade (Multicomplexity) e “o que mais importa” (Matters Most). Entre eles, o quinto “M” vem ganhando destaque por trazer uma pergunta essencial: o que realmente importa para a pessoa idosa?

O conceito de Matters Most propõe que o cuidado e as intervenções de todos os envolvidos — médicos, equipes multiprofissionais, cuidadores e familiares — sejam direcionados pelos objetivos, desejos e prioridades da própria pessoa idosa. Ou seja, todo tratamento precisa ter propósito e fazer sentido para quem está sendo cuidado.

Segundo a American Geriatrics Society, o cuidado geriátrico deve estar alinhado aos valores e às preferências individuais de cada paciente. Isso é fundamental porque o envelhecimento acontece de formas diferentes para cada pessoa. Enquanto alguns idosos priorizam longevidade e tratamentos intensivos, outros valorizam independência, conforto, convivência familiar ou manutenção da autonomia.

Dentro desse olhar, respostas subjetivas também têm grande importância. A percepção individual de saúde, bem-estar, satisfação com a vida e sensação de autonomia são indicadores relevantes no envelhecimento saudável. Muitas vezes, exames estão controlados, mas a pessoa não se sente bem, segura ou participante das próprias decisões. Por isso, o envelhecimento precisa ser compreendido de forma integral, considerando não apenas doenças, mas também história de vida, contexto social, emoções e objetivos pessoais.

Na prática, isso exige escuta ativa e participação da pessoa idosa nas decisões sobre sua própria saúde. Um exemplo comum ocorre em consultas nas quais profissionais direcionam perguntas e orientações apenas ao cuidador ou familiar, ignorando a presença e a voz do idoso. Essa postura mostra que o foco deixou de estar na principal pessoa envolvida no cuidado.

Estudos publicados no Journal of the American Geriatrics Society mostram que alinhar tratamentos às prioridades do paciente melhora adesão terapêutica, reduz hospitalizações e favorece qualidade de vida.

Mais do que prolongar a vida, a Geriatria contemporânea busca preservar dignidade, autonomia e propósito. Afinal, o melhor cuidado nem sempre é o mais complexo, mas sim aquele que respeita aquilo que mais importa para cada pessoa.

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