Queda não é normal da idade: a prevenção deve começar antes do acidente. O dia 24 de junho marca o Dia Mundial de Prevenção de Quedas, instituído pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e incorporado ao Calendário de Saúde do Ministério da Saúde do Brasil. A data existe porque o problema que ela nomeia é grave, frequentemente subnotificado e, em grande parte, evitável.
Nos últimos anos, tenho me dedicado cada vez mais a levar esse conhecimento para além dos atendimentos e prontuários: para famílias, cuidadores e para a própria pessoa idosa. Afinal, a prevenção de quedas que realmente funciona não acontece apenas dentro do sistema de saúde. Ela acontece em casa, na rotina e nas decisões cotidianas de quem cuida e de quem é cuidado.
A queda representa um importante problema de saúde pública devido às suas consequências, que vão desde lesões leves e medo de cair novamente até fraturas, perda de independência, isolamento social, hospitalizações e institucionalização, com impactos físicos, emocionais e sociais significativos.
Sabemos que cerca de 30% das pessoas idosas sofrem ao menos uma queda por ano, percentual que aumenta para 32% a 42% entre aquelas com mais de 70 anos. Além disso, pessoas idosas apresentam taxas de hospitalização até dez vezes maiores e mortalidade até oito vezes superior quando comparadas a outras faixas etárias em decorrência das quedas.
Um estudo brasileiro recente, publicado na Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia, identificou que 62,7% dos idosos avaliados relataram ter sofrido ao menos uma queda ao longo da vida.
Esses dados reforçam a necessidade de uma abordagem preventiva estruturada, contínua e especializada.
Apesar disso, a queda ainda é frequentemente tratada como um acidente: um evento aleatório, inevitável e simplesmente associado ao avanço da idade. Essa interpretação é tecnicamente equivocada e clinicamente perigosa.
A ocorrência de quedas pode ser comum, mas não é uma consequência natural do envelhecimento.
Quando tratamos a queda como acidente, deixamos de procurar suas causas.
Quando não investigamos as causas, não identificamos os fatores de risco. E quando os fatores de risco permanecem desconhecidos, a próxima queda pode ser apenas uma questão de tempo.
Na fisioterapia em gerontologia, trabalhamos com uma lógica diferente: a queda não é o problema em si, mas muitas vezes o sinal de um problema que já estava presente antes dela acontecer.
Ao longo de 19 anos atuando com fisioterapia domiciliar para pessoas idosas, aprendi que precisamos olhar para os sinais precoces. Muitos deles passam despercebidos por familiares e até mesmo pela própria pessoa idosa.
A perda de força muscular que se manifesta na dificuldade para levantar de uma cadeira ou do sofá. A necessidade de apoio para subir degraus. A hesitação ao iniciar a marcha. O apoio discreto em paredes ou móveis que antes não era necessário. A redução gradual da participação social, quando a pessoa deixa de frequentar determinados lugares, evita superfícies que antes percorria com segurança ou encurta seus passeios sem que ninguém perceba a mudança.
Esses sinais são dados clínicos. Todos podem ser avaliados. Muitos podem ser modificados.
As quedas têm origem multifatorial. Existem fatores intrínsecos, como perda de massa muscular, alterações visuais, déficits de equilíbrio, doenças crônicas e uso de múltiplos medicamentos. Também existem fatores extrínsecos, relacionados ao ambiente, como iluminação inadequada, tapetes soltos e ausência de adaptações de segurança. Somam-se ainda fatores sociais, econômicos e comportamentais que influenciam a exposição ao risco.
Por isso, a avaliação do risco de queda deve ser multiprofissional e multidimensional. Ela envolve aspectos físicos, funcionais, cognitivos, sociais e ambientais, como por exemplo: força muscular, equilíbrio, marcha, medicamentos em uso, condições visuais e atividades desempenhadas pela pessoa idosa em seu cotidiano.
Não se trata de uma triagem genérica. Trata-se de uma avaliação clínica especializada, capaz de identificar riscos antes que eles se transformem em eventos adversos.
É importante destacar que não existe risco zero para quedas. No entanto, existe a possibilidade de reduzir esse risco de forma significativa quando identificamos precocemente os fatores que contribuem para sua ocorrência.
A fisioterapia especializada em gerontologia é uma importante aliada nesse processo. Mais do que atuar após uma queda, ela permite antecipar problemas, promover intervenções direcionadas, estimular a manutenção da funcionalidade e contribuir para que a pessoa idosa preserve sua independência e qualidade de vida pelo maior tempo possível.
“Porque a melhor queda continua sendo aquela que nunca aconteceu”.
Caroline Ferreira Saladini
Fisioterapeuta Especialista em Gerontologia | Diretora da Elo Senior Care
Texto: Queda não é normal da idade: a prevenção deve começar antes do acidente
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Palavras-chave: Queda não é normal da idade, Fisioterapia para idosos, Elo Senior Care, Saúde pública