Velhice não é incômodo: o que o caso da Lapa nos ensina sobre o idadismo
As recentes discussões envolvendo Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs) no bairro da Lapa, em São Paulo, trouxeram à tona um tema que ainda recebe pouca atenção no Brasil: o idadismo. Moradores da região se mobilizaram contra a permanência de casas de repouso no bairro, alegando impactos relacionados ao trânsito, à circulação de ambulâncias e à valorização imobiliária. O episódio gerou repercussão nacional e levantou uma reflexão importante: até que ponto a rejeição a esses serviços reflete questões urbanísticas legítimas e até que ponto revela preconceitos contra a velhice?
O idadismo, também chamado de etarismo, é definido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como os estereótipos, preconceitos e discriminações direcionados às pessoas com base na idade. Embora possa afetar indivíduos de diferentes faixas etárias, seus impactos são particularmente significativos para as pessoas idosas. No relatório Global Report on Ageism, publicado pela OMS em 2021, a organização apontou que uma em cada duas pessoas no mundo apresenta atitudes idadistas em relação aos mais velhos, tornando essa uma das formas de discriminação mais disseminadas da atualidade.
O problema vai muito além de comentários preconceituosos ou atitudes isoladas. Evidências científicas demonstram que o idadismo afeta diretamente a saúde e a qualidade de vida. Uma revisão internacional que analisou mais de 400 estudos, envolvendo cerca de 7 milhões de participantes em 45 países, concluiu que o preconceito relacionado à idade esteve associado a piores desfechos de saúde em mais de 95% das pesquisas avaliadas. Entre as consequências observadas estão aumento dos índices de depressão, maior isolamento social, pior recuperação funcional após doenças, redução da participação comunitária e até menor expectativa de vida.
No Brasil, essa discussão se torna cada vez mais urgente. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que aproximadamente 15% da população brasileira já possui 60 anos ou mais. Nas próximas décadas, esse contingente continuará crescendo de forma acelerada, aumentando a demanda por serviços, políticas públicas e redes de cuidado voltadas ao envelhecimento.
Nesse contexto, as Instituições de Longa Permanência para Idosos exercem um papel essencial na rede de proteção social. Regulamentadas como equipamentos da Assistência Social, as ILPIs oferecem moradia, convivência, acolhimento e suporte para pessoas idosas que necessitam de cuidados e acompanhamento contínuos. Para seus residentes, representam muito mais do que um local de moradia: são espaços de pertencimento, vínculos e segurança. Questionar sua presença em bairros residenciais exclusivamente por estigmas associados ao envelhecimento pode contribuir para reforçar a ideia de que a velhice deve permanecer invisível ou afastada da vida comunitária.
O caso da Lapa nos convida a uma reflexão necessária. À medida que a população envelhece, será cada vez mais importante construir cidades preparadas para acolher pessoas de todas as idades. Isso envolve acessibilidade, serviços adequados e, principalmente, mudança de mentalidade. Afinal, envelhecer não é uma exceção, mas uma experiência humana compartilhada e velhice não é incômodo.
Na Elo Senior Care, fazemos um acompanhamento próximo e longitudinal no que se refere aos desafios e as potencialidades do envelhecimento. Acreditamos que o cuidado de qualidade começa pelo reconhecimento da pessoa idosa como sujeito de direitos, com história, autonomia e lugar legítimo na comunidade. Combater o idadismo é também promover uma cultura de respeito, inclusão e valorização da longevidade, fortalecendo redes de cuidado que permitam às pessoas envelhecer com dignidade e participação social.
Palavras-chave: Velhice não é incômodo, Fisioterapia para idosos, Fisioterapia Domiciliar, Fisioterapia Geriátrica